Competições de programação: Google, IBM e FISL
Por Guilherme Silveira em 19/04/07A alguns anos atrás fiz uma entrevista em uma grande empresa de Java, uma dessas com 3 letras, e a primeira frase que o entrevistador me dirigiu ao ver meu curriculum foi um sonoro:
“Essas competições de programação não dizem nada!”
Essas competições não dizem se o programador é um bom engenheiro de software ou profundo conhecedor de alguma tecnolgoia, é verdade. Nem é essa a intenção.
As questões dessas provas apresentam problemas mais complexos que o comumente exigido no mercado de TI, e não foca tanto na parte de desenvolvimento, mas mais na capacidade de encontrar soluções. Para um cientista da computação (ou um matemático, no meu caso), essa capacidade é mais importante do que o próprio desenvolvimento e codificação. Vou relatar aqui três competições as quais tiver a oportunidade de participar este ano. Em todas as três, grandes empresas como o Google e IBM, sempre estavam a caça de talentos. Pode-se dizer que um bom resultado nessas competições certamente atrairão diversas propostas de emprego, mestrado e doutorado.
Primeiro veio o Google Code Jam Latin America. Os problemas tinham o mesmo nível das competições internacionais, mas com menos fases. Na última etapa, em Belo Horizonte, tive a chance de encontrar alguns conhecidos e fazer novas amizades no meio dos 50 finalistas, dentre elas Jelani Nelson, aluno de PhD e técnico do MIT, participando pela Virgin Islands; Vinicius Fortuna ex-competidor e agora engenheiro de software do Google em Nova Iorque, que veio entrevistar os competidores; Wanderley Guimarães, atual técnico do IME-USP, além de já conhecidos e excelentes competidores do ITA e PUC-RIO. Pelo vídeo promocional, da para você ter uma idéia do quão a sério o Google leva essas competições:
Depois teve a final mundial da ACM (ACM-ICPC) em Tokyo, Japão, onde fui representando o time do IME-USP, depois da qualificação pela Maratona de Programação brasileira. Lá contamos com a presença de diversos nomes interessantes, como o criador do Ruby, Yukihiro Matsumoto, que palestrou sobre sua linguagem de programação. Entre seus comentários oportunos, disse que eficácia não é a grande preocupação de Ruby; 80% do design de uma linguagem está feito se o nome for curto, pequeno e bonito (Ruby). Outra frase dele foi “Web 2.0, o que é isso?”. Modesto.
Também estava presente Stuart Feldman que, além de presidente da ACM e criador do primeiro compilador de Fotran 77, fez parte do grupo que criou o Unix e o make. Yuhichi Nakamura, criador do Xerces (xml4j), e diretor do IBM Tokyo Research Lab estava ajudando na coordenação do evento.
Nessa competição, mais de seis mil equipes participaram do evento nas competições regionais, de mais de 1700 universidades diferentes do mundo inteiro. A competição foi emocionante, com os quatro times brasileiros bem colocados. Além disso, dois times brasileiros resolveram 4 problemas, um marco na história da competição, onde o problema mais simples envolvia um algoritmo do tipo Longest Common Subsequence. Esse é um algoritmo muito usado em inúmeros lugares, como em biologia computacional para verificar padrões de sequencias de DNA. No fim das contas, os problemas dessas competições não são tão irreais assim! Alguns problemas são muito difíceis, sendo que nenhuma equipe do mundo conseguiu resolver. Você pode ver a prova da competição aqui.
O evento aconteceu no Hilton Tokyo Bay, um hotel dentro da Disney de Tokyo e muito bonito. Os quartos tinham vista para o monte Fuji e foi possível conhecer um pouco do país e de sua história.

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O Fórum Internacional de Software Livre preparou esse ano uma competição diferente, a Arena de programação, composta por duas fases. Para poder se inscrever, era necessário resolver um problema de lógica no próprio site, no estilo python-challenge, mas bem mais simples. A idéia era encontrar o caminho para a inscrição usando de seus dotes “hackers”. O Dorneles postou a descrição de como se inscrever em detalhes.
Chegando no evento, pronto para a primeira fase, a Arena era um cercado de vidro, quase um aquário, onde os animais eram os programadores.

A primeira fase terminou com alguns conhecidos entre os top. O Hugo Corbucci, colega de viagem ao fisl pelo IME-USP, o Klaus Wustefeld e o Kalecser Kurtz, o Dornelles Tremea e eu nos qualificamos entre os top 12. A segunda fase começou no dia seguinte e era composta por, supostamente, 24 horas de programação non-stop. Os 12 primeiros da fase anterior foram divididos em quatro grupos de três competidores. Na minha equipe? Kalecser, expert em Java e Dornelles, expert em Python e linux em geral. A tarefa? Resolver quatro bugs ou feature requests do Debian. Isso mesmo. Eles deram quatro códigos de bugs que estão ocorrendo em pacotes do Debian ou que feature requests que os usuários postaram e pediram para as equipes resolverem. Excelente proposta!
O primeiro bug envolvia um problema com o teclado. Você que é fã incondicional do Debian pode alternar para o tty1 (Ctrl+alt+F1), ativar o CAPS LOCK e tentar digitar “ABCD”… se o resultado for “ABcD”, você reproduziu o bug – que só funciona com alguns layouts de teclado. Encontramos muitas informações sobre o assunto e não conseguimos resolvê-lo, fomos capazes de encontrar textos indicando que o problema era mais delicado. Tudo isso após passar por muito código fonte em bash, perl etc. O segundo bug estava no pacote cdebconf, que é responsável pelo processo de configuração de pacotes debian durante o processo de instalação dos mesmos. Após correr por diversos arquivos feitos em C, com um “quê” de orientação a objeto, fomos capazes de isolar o bug e corrigi-lo, e o patch deve se tornar disponível em breve.
O terceiro bug envolve o bugtracking do debian, que não apresentava os dados da maneira que era requisitado, enquanto o último problema estava ligado ao particionador, que encontrava problemas durante o redimensionamento em determinados casos. Muito código perl apareceu enquanto solucionávamos o terceiro bug, mas não houve tempo suficiente para sequer olhar com calma o último. No dia seguinte, a segunda parte dessa fase envolveu o desenvolvimento do zero de um programa para facilitar a internacionalização dos pacotes debian. Nosso objetivo era utilizar o Lucene para fazer o partial matching de palavras ou frases já traduzidas anteriormente em outros pacotes, mas devido ao padrão de i18n adotado pelo debian, o Java acabou segurando um pouco o desenvolvimento, mas ainda fomos capazes de mostrar algo funcional com uma implementação do Edit Distance para procurar palavras similares.
O resultado de tudo isso saiu no final do dia, durante o fechamento do evento, nossa equipe ficou em primeiro lugar! O que ganhei com tudo isso? Conheci novas pessoas que trabalham com projetos open source de áreas diferentes de Java, coloquei em prática o meu conhecimento de C que só usava na teoria, e ajudei com um projeto que jamais sonhei ser possível ajudar. Claro, o notebook que deram para cada um de nossa equipe também conta! Fui entrevistado a respeito dessa competição. Espero encontrar vocês nas próximas!