Falando de JavaFX, parte 2

Por Sérgio Lopes em 10/11/07

JavaFX
Faz tempo que postei a primeira parte dessa introdução ao JavaFX, baseada na minha palestra no Falando em Java 2007. Se você não leu, leia primeiro aquele artigo antes de seguir com este.

Relembrando, falamos que o JavaFX Script é uma nova linguagem de programação orientada a objetos, com sintaxe declarativa, recursos de programação funcional, tipagem estática (mas com inferência de tipos). Através do JFX podemos acessar as APIs do Swing e do AWT de forma fácil para construir interfaces ricas.

Observe o uso de componentes Swing de forma declarativa:

import javafx.ui.*;
Frame {
    width: 300
    height: 100
    centerOnScreen: true

    title: "Minha aplicacao JavaFX"
    visible: true

    content: Box {
        orientation: VERTICAL
        content: [
            Label {
                text: "Nome"
            },
            TextField {

            },
            Button {
                text: "OK"
            }
        ]
    }
}

Nesse exemplo, usamos um Frame com um Label, um TextField e um Button dentro. O Box é um componente de layout, análogo ao uso que se faz do BoxLayout do Swing.

Como uma linguagem orientada a objetos, o Java FX tem o suporte a classes. A sintaxe é um pouco diferente do Java, não se assuste:

public class Pessoa {
    public attribute nome: String;
    public operation limpa();

}
attribute Pessoa.nome = "Nome padrão";
operation Pessoa.limpa() {
    this.nome = "";
}

Dentro de uma classe, podemos declarar attributes, operations e functions (uma operation é o análogo ao método do Java; uma function está mais para uma função como na matemática, sem efeitos colaterais). Repare que dentro da classe declaramos apenas a interface; a implementação deve ficar fora da classe. Repare também que os valores default dos atributos também são declarados fora da classe.

Agora instanciamos a classe para usá-la:

var p1 = Pessoa{};
p1.nome = "Sérgio";
println(p1.nome);

Repare que não há chamada a construtor; usa-se as chaves para instanciar objetos, como nos exemplos anteriores. E também não declaramos o tipo da variável, ele é descoberto (inferida) automaticamente.

Se você leu atentamente o código da classe Pessoa, deve ter ficado horrorizado com uma coisa: os atributos são públicos! Em JavaFX é possível escrever atributos private e getters/setters como operations, mas o jeito mais comum de se fazer os getters e setters nessa plataforma é através de triggers.

O JavaFX possui suporte a uma série de triggers que podem ser disparadas em certos eventos da linguagem. Uma delas é na modificação de uma variável, veja:

// setNome
trigger on Pessoa.nome = outroValor {
    println("Mudei o nome para: {outroValor}");
}

Isso é praticamente um setter! (Nota: obviamente que triggers não garantem encapsulamento, por isso existe o private e a parafernalha de sempre.)

E note também a sintaxe do uso do println: em JavaFX, “concatenamos” strings acessando-as com chaves dentro da string.

Um dos recursos mais interessantes do JavaFX Script é o data binding automático entre Model e View: quando os dados do model mudam, a view é automaticamente atualizada e vice-versa. Por exemplo, se fizéssemos um TextField para a digitarem o nome de uma Pessoa, podemos atrelar um objeto Pessoa ao campo de texto com o operador bind:

// instancia Pessoa em algum ponto do código
var pessoa = Pessoa{};

// ...
     // na hora de fazer o formulario, atrelamos pessoa.nome ao TextField
     TextField {
           value: bind pessoa.nome
     }
// ...

Nesse exemplo, toda vez que alteraremo valor do campo de texto, nossa instância do model estará atualizada (e se alterássemos o model, a view também veria). Esse tipo de recurso não existe no Java padrão e no Swing. (Nota: a JSR 295 tenta implementar algo assim para o Swing.)

Até agora usamos bastante coisa do Swing/AWT, mas além disso, podemos usar recursos de desenho em duas dimensões com Java 2D e, em breve, também suporte ao Java 3D e APIs de Multimedia. Veja como é simples desenhar com Java 2D (e observe como a sintaxe é muito semelhante a um SVG):

import javafx.ui.*;
import javafx.ui.canvas.*;
import java.lang.*;

Frame {
    title: "Loja virtual com JavaFX"
    width: 700
    height: 560
    visible: true
    centerOnScreen: true

    content: Canvas {
        content: [
            Rect {
                x: 0
                y: 0
                width: 700
                height: 560
                fill: Color {red: 0.086, green: 0.086, blue: 0.086}
            },
            Text {
                x: 20
                y: 15
                content: "Loja Virtual de MP3 "
                font: Font {faceName: "Gill Sans", size: 32, style: PLAIN}
                fill: Color {red: 0.176, green: 1, blue: 0.435}
            }
        ]
    }
}

Este exemplo é o princípio da Loja Virtual que fiz para a palestra e que mostrei no artigo anterior. Ele apenas desenha um retângulo e coloca um texto. Repare no uso das classes do java 2D, no uso das cores e fontes e na forma estruturada em que estão declarados os elementos do desenho. No próximo artigo irei mostrar os bastidores da Loja Virtual para apresentar recursos avançados do JavaFX.

Para testar os códigos deste e dos outros artigos, recomendo o uso do plugin para o Eclipse ou para o Netbeans. Você pode encontrar mais detalhes sobre como usá-los na página oficial do projeto.

Algumas pessoas têm me perguntado sobre o presente e o futuro do JavaFX. A verdade é que, hoje, ele ainda é muito instável e muito beta. Não é para ser usado em produção ainda, não é para sairmos migrando nossos projetos para o JFX. Mas a Sun tem falado muito do JavaFX e investido pesado nisso, o que faz com a tecnologia tem um futuro potencialmente promissor.

Como disse no outro artigo, o sucesso do JFX vai depender das ferramentas que surgirem em torno da tecnologia (e a Sun sabe disso). Por isso o Flash é tão mais popular hoje em dia. Hoje já temos algumas ferramentas para o JFX desenvolvidas mais como provas de conceito, mas que dão idéia de como esse mercado será o futuro.

  • A ReportMill lançou o JFXBuilder, uma ferramenta poderosa para gerar relatórios em JFX;
  • O projeto oficial openjfx tem o JavaFXPad que é um editor dinâmico para JavaFX que mostra um preview da tela enquanto você escreve;
  • E há o JavaFX SVG Translator, que transforma arquivos SVG em JavaFX; e com isso conseguimos usar qualquer editor vetorial com suporte a SVG para criar coisas para JavaFX, começando já a integrar os designers na plataforma.

Tudo isso em pouco tempo em que apenas versões de teste do JavaFX existem! Minha dica hoje é: brinque com o JavaFX, leia sobre ele e fique de olho na tecnologia! Espere grandes avanços em 2008!

Falando em Java: Introdução ao JavaFX

Por Sérgio Lopes em 18/07/07

Atualização: Segunda parte do artigo de JavaFX aqui.

No último Falando em Java apresentei uma palestra sobre JavaFX, apresentando a tecnologia e especulando sobre o futuro desse mercado.

O JavaFX foi apresentado[1] pela Sun no último JavaOne em maio desse ano como uma nova estratégia da empresa para levar o Java ao desenvolvimento fácil de interfaces ricas com o usuário. Dois produtos foram anunciados e novidades foram prometidas para breve. Hoje o que temos é o JavaFX Mobile e o JavaFX Script.

O JavaFX Mobile é um novo sistema operacional baseado no kernel do Linux e com uma JVM portátil que pretende levar o Java ao novo mercado dos “smartphones” a la iPhone. Seria voltado ao desenvolvimento fácil de aplicativos bonitos e usáveis em ambiente móvel.

Já o JavaFX Script é uma nova linguagem de programação pensada para o desenvolvimento de interfaces Swing/AWT/Java2D de forma mais fácil do que hoje. A idéia da Sun é atacar o mercado Desktop, onde o Java tem ganho certo mercado ultimamente, mas também atacar o Adobe Flex e o MS Silverlight no mercado de Rich Internet Applications, as RIAs.

Hoje o mercado de aplicativos ricos embutidos no navegador é dominado pelo Adobe Flash (diretamente ou através do Flex, por exemplo). Os Applets foram a primeira tentativa da Sun de atacar esse mercado lá no começo da década de 90 mas o Java não vingou nesse mercado; o JavaFX hoje é a tentativa de retomá-lo. Isso ao mesmo tempo que a Microsoft entra com o Silverlight e onde JavaScript/AJAX consegue fazer já boa parte do que essas tecnologias se propõe a fazer.

Alguns problemas frequentemente apontados para o fracasso dos Applets:

  • Difícil de desenvolver: programação “pura” em Swing é chato e improdutivo
  • Falta de boas ferramentas para desenvolvimento visual: o Flash só é o que é hoje porque atacou o mercado dos designers e desenhistas antes de se preocupar com os programadores
  • Java é feio?
  • Java é lento? E ninguém tem Java instalado na máquina?
  • Todas essas questões já estão sendo vislumbradas pela Sun. O Java hoje não é lento (era, uma década atrás) e estima-se que 91% dos PCs possuam Java instalado. Mas ainda temos problemas: o tempo de Startup da JVM ainda é alto (em grande parte devido às operações de I/O para subir a VM) e o download é grande. Ambas as questões devem ser solucionadas com a chamada Consumer JRE[2], uma JRE modular onde se baixa apenas os componentes necessários para rodar as aplicações normais e módulos extra são baixados automaticamente sob demanda.

    As questões da dificuldade de desenvolvimento e falta de boas ferramentas são justamente o foco do JavaFX.

    O JavaFX Script é uma linguagem de script declarativa e orientada a objetos, com sintaxe simplificada para desenvolvimento de GUIs. É bem diferente do Java tradicional mas já possui plugins para Eclipse e Netbeans para facilitar o desenvolvimento.

    Veja uma comparação entre um Hello World em Swing e em JavaFX:

    // em Swing
    public class HelloSwing {
    	public static void main(String[] args) {
    		JFrame frame = new JFrame("Meu programa em Swing");
    		JLabel label = new JLabel("Olá Mundo");
    		Dimension d = new Dimension(300, 50);
    		frame.setSize(d);
    		frame.add(label);
    		frame.setVisible(true);
    	}
    }
    
    // em JavaFX
    Frame {
    	title: "Meu programa em javafx"
    	width: 200
    	height: 50
    	visible: true
    	content: Label {
    		text: "Olá mundo"
    	}
    }
    

    Note a semelhança com linguagens de marcação como XML, onde a forma declarativa e aninhada de se agrupar os componentes facilita o desenvolvimento e a leitura do programa.

    Você pode executar esse exemplo através do Java Web Start, clicando aqui.

    Na palestra, desenvolvi um pedaço de uma loja virtual com efeitos 3D e animações. Usamos nesse exemplo recursos avançados do JavaFX como binding de componentes para classes de modelo, buscas otimizadas em arrays, triggers para eventos em variáveis, Java2D, animações e outros. No próximo artigo trato desses assuntos com mais detalhes, mostro como configurar o ambiente de desenvolvimento, bem como outras coisas como concorrência de Threads, integração com o Java e conectividade.

    Você pode executar o demo clicando aqui.

    Os exemplos são apresentados em Java Web Start em formato jar. O ambiente de execução do JavaFX é distribuído junto e possui 2MB; nas futuras versões do JRE, o JavaFX deverá vir embutido, diminuindo consideravelmente o tamanho do download.

    Para ver os fontes, basta descompactar o jar e ver os arquivos .fx. O código fonte é de propriedade da Caelum, exceto o componente DisplayShelf desenvolvido por Chris Oliver e liberado no Site dele. [5]

    Até o próximo artigo!

    Atualização: Segunda parte do artigo de JavaFX aqui


    Algumas referências:

    [1] Apresentação do Chris Oliver sobre o JavaFX/F3 no JavaOne

    [2] Palestra apresentada no JavaOne sobre o mercado Desktop Java e a Consumer JRE

    [3] Tutorial para iniciantes em JavaFX

    [4] Especificação da linguagem JavaFX Script

    [5] Blog do Chris Oliver, desenvolvedor do JavaFX

    [6] Projeto OpenJFX com a implementação do JavaFX e muito material