Desvendando o editor Vim

Vim é um editor de texto poderoso e altamente configurável. Contudo, ele possui uma curva de aprendizado estranha – às vezes parece mais uma escada de degraus desiguais do que uma curva. O primeiro contato com ele é quase sempre de estranhamento.

Tudo isso é motivo suficiente para afastar os menos pacientes ou curiosos, mas não desista sem ao menos tentar junto a esse guia!

Há várias razões para o vim ter se tornado um editor famoso: Além de possuir uma comunidade forte – e cheia de truques nas mangas – há uma diferença notável na produtividade ao editar arquivos, principalmente para programadores. E não se engane, este não é só um editor com “alguns truques a mais”.

Este tutorial vem com um arquivo junto. Caso queira acompanhar e testar as dicas enquanto aprende, recomendo que faça o download do arquivo.

Atalhos e comandos

Vamos começar abrindo o editor:

Primeiro abra o terminal (OSX/Linux) ou o prompt(Windows). O simples comando vim abre o editor vazio (será necessário especificar onde salvar posteriormente). Alternativamente, vim vimtutorial.txt abre o arquivo de nome “vimtutorial.txt”.

É bem provável que a primeira impressão seja: “não consigo digitar!”. Bem, o vim possui alguns modos, e o que você pode fazer muda em cada um deles. Não se preocupe, logo você entenderá como eles funcionam.

Antes disso, vamos aprender como funcionam atalhos no vim. Uma das sacadas dos criadores foi tentar reduzir ao máximo o uso de modificadores como CTRL ou SHIFT (que de fato causam uma baita tendinite). Eles conseguiram isso com a distinção de modos, fazendo com que a maioria das teclas sejam um atalho.

De agora em diante, passe a testar os atalhos conforme forem apresentados, isso lhe dará familiaridade e conforto com o editor.

Antes de começar, tenha uma coisa em mente: muitos comandos do vim podem ser repetidos múltiplas vezes se digitarmos um número antes dele. Por exemplo: digite “10dd” e seu editor apagará as próximas dez linhas. Use isso a seu favor!

Para os que estão seguindo o arquivo-tutorial, tem um exemplo de uso desse comando no arquivo.

CUIDADO – há distinção entre letras maiúsculas e minúsculas no vim. Isto é, o comando r pode ser diferente do R. A tecla CAPSLOCK inverte o comportamento.

Preparado para começar com o vim? Então bora conhecer os seus modos.

Modo ‘normal’

Este é o modo no qual o vim inicia. Você identifica-o quando não há nenhuma informação no canto inferior esquerdo da tela:

Essa é a tela inicial quando não especificamos nenhum arquivo ao abrir o editor. Note que ele inicia no normal mode.

Ele serve para navegação e manipulação de texto. Nele você pode utilizar as setas, home e end para se mover. Segue o exemplo de alguns comandos muito utilizados:

  • dd: remove a linha atual (delete)
  • dt: remove tudo da linha que está entre seu cursor e a primeira ocorrência do caractere digitado logo em seguida. (delete ‘till)
  • x: recorta o caractere atual para colar depois (cross)
  • yy: copia a linha atual (yank)
  • p: cola o que está colado, o clássico paste
  • w: andar o cursor uma palavra (word)
  • b: volta o cursor uma palavra (back)
  • u: equivalente ao CTRL+z, ou seja, undo
  • CTRL+R: é o redo, ou seja, desfaz o undo

Note que, no geral, os comandos vem do nome das ações, o que ajuda muito a memorizar tudo.

Outra sacada dos criadores foi dar um jeito de manter a mão do programador sempre pelas letras. Assim, h, j, k e l podem ser usados como setas neste modo (esquerda, baixo, cima, direita).

Nesse modo você também pode digitar / (forward-slash) e digitar uma palavra ou até uma expressão regular. Essa é a busca.

Ao apertar enter, você poderá navegar pelos resultados com SHIFT+n e n (resultado anterior/próximo resultado). Use ESC para sair dela.

Caso esteja acompanhando com o arquivo-tutorial, experimente digitar “/palavras” e ver a busca em ação.

Note que a busca, por padrão, não destaca todas as palavras, mas apenas move o cursor. É claro que podemos mudar isso – um exemplo do quão configurável o vim é.

Modo ‘insert’

Esse modo é o mais procurado por iniciantes – o modo de escrita! Para acioná-lo basta apenas mover o cursor para o local desejado e então digitar a tecla i. Agora já podemos escrever! Veja:

Note que no canto inferior esquerdo aparece o INSERT, portanto, com este visual, pode editar seu arquivo à vontade.

Além do i, há outras alternativas de entrar neste modo. A diferença é o que acontece com o cursor um momento antes de você poder digitar:

  • A: move o cursor para o final da linha
  • I: move o cursor para o começo da linha
  • o: abre uma linha vazia abaixo da atual e move o cursor para ela
  • O: abre uma linha vazia acima da atual e move o cursor para ela

Legal, estamos digitando, mas como podemos, por exemplo, sair desse modo e voltar para o normal? Simples, basta apenas usar a tecla ESC! E é basicamente isso. Aproveite o momento para fazer o exercício descrito no arquivo.

Modo ‘visual’

Esse modo serve para selecionar e manipular texto. Nele podemos usar quase todos os comandos do modo normal, mas eles serão aplicados em toda a seleção.

Esse é o visual mode. Nós temos uma indicação no canto esquerdo inferior e o texto selecionado é destacado.

Um aviso: é necessário passar pelo modo normal sempre que você for trocar de modos. Por exemplo, se você está em insert e gostaria de ir para visual, é necessário usar ESC primeiro e partir daí. Isso vale para qualquer troca entre modos que não envolva o normal.

Inclusive, é considerado boa prática (e também mais conveniente) manter-se no modo normal se não estiver fazendo nada (idle).

Dito isso, veja os comandos para entrar no modo visual, e o tipo de seleção que eles proporcionam:

  • v: seleção caractere a caractere
  • V: seleção de linhas
  • CTRL+V: seleção de bloco

Você pode, por exemplo, selecionar várias linhas, copiar com y e colar em outro lugar com p.

Uma outra utilização do modo visual é o dobrar (folding) várias linhas em uma só. Por exemplo, para esconder as linhas de uma função que você não vai modificar no futuro próximo.

Para fazer isso selecione as linhas que você quer juntar temporariamente (é apenas um efeito visual) com V e digite zf. Depois, para desdobrar as linhas comprimidas, navegue o cursor até ela e pressione zo. Para treinar, siga o tutorial no arquivo.

Veja como o vim indica que ele comprimiu visualmente 12 linhas para uma só:

Modo ‘command-line’

Até agora conseguimos editar, navegar e selecionar texto no nosso arquivo. Mas não temos nenhuma pista de como salvar o arquivo ou fechar nosso editor.

Claro, podemos fechar o terminal, mas isso – além de inconveniente – não resolve o problema de salvar. Mas então, qual o atalho para cada uma dessas funções? Mais do que um atalho, certas ações precisam usar comandos. O modo que permite isso é o command-line:

Ao pressionar ‘:’ seu cursor existirá apenas no canto inferior esquerdo, onde você pode digitar e executar comandos com ENTER. O histórico pode ser navegado com as setas para cima e para baixo. Segue alguns comandos importantes:

  • w: salva o arquivo, pode opcionalmente colocar um nome em seguida para salvar no arquivo com este nome
  • q: sai do vim e volta para o terminal. Você pode usar q! para sair sem salvar
  • %s/padrão/substituto/opções: substituição
  • vs: abre na mesma tela o arquivo especificado, dividindo o espaço verticalmente
  • split: abre na mesma tela o arquivo especificado, dividindo o espaço horizontalmente

O comando de substituição merece mais atenção. Vamos começar com um exemplo: %s/antigaVariavel/novaVariavel/g. Ao executar esse comando, toda ocorrência de antigaVariavel será trocada por novaVariavel. Veja antes:

e depois:

O g no final indica global, ou seja, no arquivo todo. Você pode adcionar c (/gc) para que o editor pergunte, a cada ocorrência, se você deseja fazer a substituição:

Como na busca, tanto padrão quanto substituto podem ser expressões regulares, o que dá muito poder para o editor! Para treinar, existe um exercício no arquivo disponibilizado.

Uma funcionalidade interessante é que os splits podem ser feitos recursivamente, ou seja, o espaço da tela designado para um espaço pode ser dividido com outro arquivo. Vamos ver um exemplo (extremo) dessa característica:

Veja como os splits funcionam! Fica claro porque eu não recomendo que passe de 4 telas. Mas mesmo assim ainda não sabemos como lidar com tantas telas. Alguns atalhos nos ajudam com isso:

Para navegar entre cada tela (como um CTRL+TAB no browser), CTRL+w pode ser usado ao ser pressionado duas vezes seguidas. Alternativamente, você pode ir para uma direção com CTRL+w+h/j/k/l (esquerda, baixo, cima, direita). Por fim, para fechar um split, basta fechar o arquivo com :q.

Conclusão

Embora você já consiga abrir o seu (possívelmente) novo editor preferido e usá-lo, ainda existem muitos truques e configurações que dão mais poder ao usuário.

Do jeito que está ele é feio, não tem informações importantes à vista e ainda apresenta comportamentos estranhos. Ainda bem que, como você já deve ter adivinhado, tudo isso pode ser customizado de modo a atender suas necessidades e gostos.

O próximo passo é aprender a preencher o seu arquivo de configurações, o .vimrc. Há muitas configurações possíveis, e apenas com elas podemos tirar o máximo de todas features que você acabou de aprender. O ideal é pegar um .vimrc base e ir adicionando o necessário.

Por sua sorte, a comunidade do vim é bem forte e leal – e material para aprender é o que não falta. Além disso, aproveite e deixe o seu comentário sobre o que achou do vim.

Aprender uma ferramenta e suas features é sempre bacana, pois o nosso trabalho se torna cada vez mais produtivo, certo? Então que tal aprender alguns truques com o Eclipse IDE também?

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9 Comentários

  1. William Oliveira 11/04/2017 at 19:01 #

    Parabéns pelo artigo, Victor!

    Não tenho certeza se no Windows o VIM funciona de primeira no prompt.

    Em todo caso, quem quiser usar VIM ou qualquer coisa Unix no Windows, recomendo o Cmder

    Eu também fiz um artigo de introdução ao VIM aqui: https://woliveiras.com.br/posts/Comecando-com-o-editor-de-texto-VIM/

    E quem precisar, também tem um GitBook de referência sobre o editor.

  2. Gabriel Cesar 11/04/2017 at 22:47 #

    Muito bom. Excelente artigo. 😉

  3. João Anunciação 12/04/2017 at 13:50 #

    Muito legal o tutorial, simples e ensina o básico para quem tá começando. Acho interessante para quem está aprendendo e não tem tem po de perder a produtividade enquanto aprende a usar o Vim. Uma dica é usar o gVim “easy mode”. Basicamente deixa ele mais parecido com a interface de um editor tradicional e aos poucos você vai inserindo uma ou outra funcionalidade ou comando que for aprendendo, só não pode entrar na zona de conforto e parar de incluir coisas novas.
    PS.: No exemplo do modo ‘comand-line’ o % representa o arquivo todo, a opção ao final ‘g’ (global) serve para a ocorrência do padrão tomar efeito de substituição quando ocorrer mais de uma vez na mesma linha, caso contrário o comando irá substituir na primeira ocorrência e passar para a próxima linha.

  4. Victor Sprengel 12/04/2017 at 16:04 #

    É verdade João, dizer que o “g” indica procurar no arquivo todo é uma simplificação, mas procurar todas ocorrências de todas as linhas é basicamente procurar no arquivo todo. Mesma coisa para o “%”, eu nunca uso sem.

  5. Icaro 14/04/2017 at 08:25 #

    Alguém poderia dizer coisas que o Vim faz que o Sublime não faz, ou então que faz de uma forma melhor, e que, então, o faria uma alternativa melhor pra quem dispõe de interface gráfica?

  6. Victor Sprengel 18/04/2017 at 18:58 #

    Olá Icaro, dois exemplos bem rápidos:

    No Sublime (por exemplo) também é possível realizar “splits” na tela para editar vários arquivos simultâneamente, mas não de maneira tão livre: Nele eu não consigo ter um arquivo em uma metade da tela e dois arquivos na outra metade (ele permite apenas divisões iguais). Ao fechar todos arquivos de um split, o split não fecha dinâmicamente, e continua lá ocupando espaço mesmo sem haver texto. Além disso, não é possível mudar qual arquivo estou editando sem o mouse, que além de lento faz com que a posição do cursor em cada arquivo seja perdida.

    Outro exemplo é o caso em que ambos editores conseguem fazer a mesma coisa, mas enquanto um editor gráfico usa vários comandos e clicks, no vim basta usar um comando. Se eu quiser fazer uma substituição por expressão regular no sublime, eu uso CTRL+SHIFT+F, depois ALT+R para selecionar “expressão regular”, preencho os campos usando TAB e ainda preciso clicar no botão de “Replace”, para então vir um pop-up me perguntando se eu quero mesmo substituir. Sem falar dos atalhos que você precisa usar para mudar preferências como “case insensitive”! No vim basta digitar um comando, que não é muito maior do que o termo procurado e o resultado final.

    Espero ter ajudado!

  7. João Anunciação 25/04/2017 at 08:44 #

    Ícaro, para mim, o divisor de águas do Vim contra outros editores foi quando eu aprendi a escrever macros. Não sei se o Sublime faz isso ou não, ou se é tão eficiente quanto o Vim. Basicamente você salva qualquer sequencia de comandos ou edições que está fazendo em um registrador para poder executar isso novamente quantas vezes quiser. É um pouco avançado, mas vale a pena aprender.

  8. Vinicius Miqueloti 03/05/2017 at 12:42 #

    Acho que o Sublime não tem macro não João, o Notepad++ (Windows) possui, mais é meio bugado.

    O Sublime é pago (ok, vc pode ignorar a aquisição de licença eternamente, mais ele irá te pertubar pra comprar), o Vim é Free.

    Uma vantagem absurda é a edição de arquivos na casa de GB’s, o Sublime e o Notepad++ não aguentam editar arquivos de muito GB’s, enquanto o Vim é de longe o melhor editor para estes casos (melhor que isso em termos de leveza e alta quantidade de dados só utilizando sed para substituir ocorrências pontuais que vc saiba que exista, grep para filtrar as linhas das quais vc precisa, e awk para uma manipulação de colunas, ou tentar jogar o conteúdo para uma base de dados se for possível.)

    Quanto a interface gráfica, temos opções como o GVim para ficar mais agradável para quem preferir, sem perder o seu uso por comandos.

  9. Piadista 16/05/2017 at 16:09 #

    VIM é excelente pra quem sabe usar. Eu messmo uso ele há cerca de 2 anos… até hoje não descobri como sair.

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