Um toque de programação funcional em Java
Postado em 22. fev, 2011 por Lucas Cavalcanti em Inovação, Java
Com as closures do Java 8 previstas apenas para meados de 2012, surgem outras possibilidades para trabalhar um pouco mais funcionalmente. Enquanto isso não acontece, como podemos fazer para que os conceitos de programação funcional ajudem a escrever o nosso código?
Consideremos o caso de calcular a média ponderada de uma List<Prova>, onde Prova tem nota e peso. Em java teríamos um laço como:
public double mediaPonderada(List<Prova> provas) {
double somaNotas = 0.0;
double somaPesos = 0.0;
for (Prova prova : provas) {
somaNotas += prova.getNota() * prova.getPeso();
somaPesos += prova.getPeso();
}
return somaNotas / somaPesos;
}
Mas gostaríamos de algo mais genérico, para poder tirar média ponderada de qualquer objeto. A abordagem padrão em java é extrair uma interface com os getters para o valor da nota e para o peso, e fazer com que Prova implemente essa interface:
public interface Ponderavel {
double getValor();
double getPeso();
}
public class Prova implements Ponderavel {...}
Assim a implementação do mediaPonderada ficaria:
public double mediaPonderada(List<Ponderavel> ponderaveis) {
double soma = 0.0;
double somaPesos = 0.0;
for (Ponderavel ponderavel : ponderaveis) {
soma += ponderavel.getValor() * ponderavel.getPeso();
somaPesos += ponderavel.getPeso();
}
return soma / somaPesos;
}
E o que acontece se não pudermos (ou não quisermos) implementar a interface só pra chamar o método mediaPonderada? Teríamos que usar, então, a mesma abordagem que o Collections.sort, e criar uma outra interface para poder calcular a média ponderada de uma lista qualquer:
public interface Ponderante<T> {
double valorDe(T t);
double pesoDe(T t);
}
assim a chamada do método ficaria:
List<Prova> provas = ...;
double media = mediaPonderada(provas, new Ponderante<Prova>() {
public double valorDe(Prova prova) {
return prova.getNota();
}
public double pesoDe(Prova prova) {
return prova.getPeso();
}
});
Isso resolve o problema de uma forma geral, mas prejudica bastante a leitura da chamada do método com a criação da classe anônima. Para quem já programou em Scala ou em alguma outra linguagem funcional, a abordagem natural seria passar os métodos a serem chamados nos objetos da lista como argumentos do método mediaPonderada. Por exemplo, o código em Scala seria:
var media = mediaPonderada(provas, _.nota, _.peso) ...
Nesse código chamaremos os métodos nota e peso (os equivalentes aos getters de java) em cada elemento da lista provas, usando-os como valor e peso. Mas será que conseguimos fazer algo parecido com isso no java que temos hoje em dia? A resposta é sim, basta deixarmos de lado alguns dos nossos preconceitos e usarmos a criatividade.
A primeira coisa que precisamos é receber os métodos que serem chamados como parâmetro do mediaPonderada. Poderíamos usar o java.lang.Method para isso, mas para evitar a grande quantidade de exceptions que deveriam ser tratadas e a programação orientada a string, usaremos a Function do Google Guava:
public <T> double mediaPonderada(List<T> lista, Function<T, Double> valor, Function<T, Double> peso) {
double soma = 0.0;
double somaPesos = 0.0;
for (T t : lista) {
soma += valor.apply(t) * peso.apply(t);
somaPesos += peso.apply(t);
}
return soma / somaPesos;
}
A princípio a chamada do método não melhorou muito:
double media = mediaPonderada(provas, new Function<Prova, Double>() {
public Double apply(Prova p) {
return p.getNota();
}
}, new Function<Prova, Double>() {
public Double apply(Prova p) {
return p.getPeso();
}
});
Agora precisamos criar uma forma de capturar uma chamada de método e transformá-la numa Function. Para capturar a chamada, podemos usar um proxy, que é uma classe filha de uma interface ou classe em que podemos controlar o seu comportamento através de um MethodInterceptor, que intercepta todas as chamadas de métodos. O VRaptor já possui um criador de proxies pronto, o ObjenesisProxifier, que torna bem simples o processo de criar um proxy.
Vamos, então, criar uma classe e um método para poder criar esse proxy facilmente e guardar o método capturado num um pouco deselagante ThreadLocal (para possibilitar uma maior flexibilidade, deveríamos guardar uma pilha de métodos e argumentos):
public class Funcional {
private static final ThreadLocal<Method> method = new ThreadLocal<Method>();
private static final ThreadLocal<Object[]> args = new ThreadLocal<Object[]>();
public static <T> T of(Class<T> type) {
return new ObjenesisProxifier().proxify(type, new MethodInvocation<T>() {
public Object intercept(T proxy, Method method, Object[] args, SuperMethod superMethod) {
Funcional.method.set(method);
Funcional.args.set(args);
return null;
}
});
}
}
Estamos usando métodos estáticos para poder usar o import static e deixar o código um pouco mais legível, e precisamos do ThreadLocal para podermos armazenar o método chamado sem se preocupar com problemas de concorrência. Agora precisamos de um outro método que transforma o método capturado numa Function:
public static <T,F> Function<T,F> function() {
final Method method = method.get();
final Object[] args = args.get();
return new Function<T,F>() {
public T apply(F f) {
return (T) new Mirror().on(f).invoke()
.method(method).withArgs(args);
}
};
}
Usamos aqui o Mirror, que permite invocar o método via reflexão envelopando as checked exceptions da API de reflection em exceções de runtime. Assim, para conseguir criar a Function só precisaríamos chamar o método of antes:
of(Prova.class).getNota(); Function<Prova, Double> getNota = function(); of(Prova.class).getPeso(); Function<Prova, Double> getPeso = function(); double media = mediaPonderada(provas, getNota, getPeso);
E se tirarmos vantagem da ordem de chamada dos métodos em java podemos fazer com que o método function receba um parâmetro, que será ignorado:
public <F,T> Function<F,T> function(T ignorado) {...}
Assim podemos invocar:
Function<Prova, Double> getNota = function(of(Prova.class).getNota()); Function<Prova, Double> getPeso = function(of(Prova.class).getPeso()); double media = mediaPonderada(provas, getNota, getPeso);
Ou ainda (com um pequeno truque por causa da inferência de tipos genéricos do java):
double media = mediaPonderada(provas, function(of(Prova.class).getNota()), function(of(Prova.class).getPeso()));
...
public <T> Function<Prova,T> function(T ignorado) {
return Funcional.function(ignorado);
}
Extraindo o of(Prova.class) para uma constante chamada _, chegamos em algo bem próximo à sintaxe do Scala:
private static Prova _ = of(Prova.class);
...
double media = mediaPonderada
(provas, function( _.getNota()), function( _.getPeso()));
...
Aqui trocamos a complexidade da implementação – e até um pouco de performance – pela legibilidade e extensibilidade do uso desse código (poderíamos usar essa function em várias das classes do Guava, por exemplo), mesmo abusando de recursos e estruturas polêmicas – como ThreadLocal e métodos estáticos. E essa é uma abordagem que vem sendo usada em várias bibliotecas, como JUnit, Hamcrest e Mockito. É importante notar também que muitas das idéias desse código final vieram do Scala, e de outras linguagens funcionais, reforçando a importância de aprender várias linguagens de programação.
Esse é um exemplo do malabarismo que podemos fazer com java e proxies, e o resultado ainda é um pouco difícil de ler. A abordagem do Java 8 vai ajudar a divulgar essas técnicas, com uma sintaxe muito mais adequada. O código completo pode ser visualizado aqui. Para quem gostou desse tipo de manipulação, existe o projeto LambdaJ que adiciona várias características funcionais ao java, deixando alguns códigos, como o que vimos acima, mais concisos e legíveis.
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Rdorigo Urubatan
23. fev, 2011
É bom saber que isto é possível em java, eu nunca tinha pensado em nada parecido
mas eu ainda prefiro usar Scala para este tipo de código
Frankyston Lins
24. fev, 2011
bem interessante, é um forma bem util de programar, e nunca tinha pensando dessa maneira, parabens pelo artigo, e obrigado por disponibilizar tal conhecimento
Paulo "JCranky" Siqueira
25. fev, 2011
Posso estar falando besteira, mas a maneira como ficou isso em Java, com classe Function e talz, me parece com o que Scala faz internamente.
Eu não tinha parado para pensar em aplicar isso em Java “puro”… interessante. Pode ser útil para quem estiver trabalhando em um ambiente restrito, que não permita o uso de Scala hehehe
Bruno Palaoro
11. mar, 2011
O nome da matéria deveria ser como matar uma formiga com um canhão.
Yuri
26. mar, 2011
Concordo com o Bruno.
Renato
02. abr, 2011
Eu acho que é matando a formiga com o canhão que se aprende a matar coisas maiores depois. Muito bom o artigo, obrigado por compartilhar. Abrazzz!